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A PSICOFOBIA E O TDAH

Brain
Brain, do artista TZA (https://www.flickr.com/photos/tza/)

 

A psicofobia é um transtorno muito comum hoje em dia, especialmente no público dos especialistas ou dos que pretendem diagnosticar o TDAH. Seu sintoma básico é o temor (fobia) do sujeito (psique = alma, mente), expresso no enquadramento e silenciamento daqueles que, ao receberem o veredicto de “transtornados” ou “hiperativos”, são sentenciados e condenados através de um diagnóstico.

A condenação e silenciamento dos sujeitos se realiza através da alegação de que há alterações na circulação de dopamina, catecolamina ou noradrenalina nos cérebros das pessoas portadoras de TDAH. Essas alterações seriam a “causa” do comportamento distraído ou hiperativo, e não o efeito de conflitos, hábitos, preferências ou aversões dos estudantes em relação a um determinado tipo de comportamento socialmente determinado.

Conflitos inconscientes, problemas emocionais, inconformismo, diferenças de classe, desinteresse – nada disso é levado em consideração quando se diagnostica alguém como portador deste transtorno.

A grande hamartia (pecado, erro) deste procedimento é ignorar que o homem é um ser psicossocial, um animal cultural, e focar o alvo da análise apenas em cima de um sintoma, descontextualizando-o daquilo que efetivamente o gerou.

O fato de um estudante ser tido como “distraído” na sala de aula não configura  necessariamente uma doença. Significa, no mais das vezes, que o assunto ou o objeto sobre o qual se pretende que ele aplique a sua atenção não o atrai.

Grande parte dos médicos, em função do saber hiperespecializado de sua formação, são treinados para interpretar as doenças de uma forma descontextualizada, vendo-a como um mal que “acontece” ao indivíduo, uma fatalidade, e não como a expressão de um estilo de vida, o resultado de desejos ou de ações e omissões do indivíduo. Eles são doutrinados, em sua formação, no sentido de maximizarem a importância dos aspectos genéticos e bioquímicos e minimizarem os fatores subjetivos implicados nesse processo.

Esta concepção biomédica, em maior ou menor grau, disseminou-se entre vários outros profissionais da saúde – como enfermeiros, nutricionistas, fonoaudiólogos, psicopedagogos clínicos, etc., e (pasmem!) até entre os psicólogos. No fundo, a questão gira em torno da visão que se adota acerca daquilo que se supõe ser o homem: um ser eminentemente bioquímico ou um sujeito, dotado de cultura, consciência e linguagem.

De qualquer forma, o médico pode saber com segurança se um “paciente” está ou não enfermo, através de testes objetivos e seguros. Quando alguém está doente, é imperioso receber o quanto antes um diagnóstico a fim de usar a medicação adequada para extirpar a doença.

No caso dos transtornos mentais a situação é bem diferente: não há testes objetivos que possam indicar se uma pessoa é portadora ou não de TDAH. Pior: no momento em que o sujeito é diagnosticado como possuindo um transtorno, o diagnostico em si mesmo “adere” ao “paciente” e o transforma numa coisa, o desumaniza. Quando o paciente internaliza esse rótulo, passa a ver-se como um doente e não se sente mais responsável por si mesmo. O tratamento medicamentoso vai cegá-lo para si mesmo, e, ao mesmo tempo, colocar o médico na condição de surdo em relação à sua verdade subjetiva. Portanto, deve-se ter sempre em mente tanto os efeitos iatrogênicos implícitos ao próprio ato de diagnosticar quanto os resultantes da indicação dos medicamentos. Pois como recomendava o grande Hipócrates: “Antes de tudo,não cause dano…”.

Os sintomas psíquicos são sinais, mensagens que apontam para existência de conflitos. No momento em que os sintomas são vistos como “o mal”, ou seja, quando não são escutados, acolhidos e compreendidos, o tratamento erra o alvo, perde o foco, se distrai, trai o sujeito que demanda apenas respeito, amor, atenção e acolhimento.

E mais grave: quando a solução apontada não é a escuta do sujeito e o respeito pela sua singularidade, mas a medicação como instrumento terapêutico, o sujeito é expropriado de si mesmo, perde o direito de autogerir as próprias emoções e o tratamento condena o paciente ao mutismo e o psiquiatria ou neurologista, à surdez.

Qual é o remédio para tudo isso? Contra a medicalização da vida, os profissionais da saúde poderiam se dar conta de que aquele que está diante de si não é um mero ser bioquímico, um “paciente”, mas sim um sujeito, dotado de linguagem, consciência e valores. E que, num ambiente de seres humanos, o mais poderoso recurso curativo é confiança, o respeito e o amor desinteressado que pode se estabelecer entre duas pessoas, num diálogo franco e aberto, onde o curador e aquele em tratamento tentem se livrar de todos os seus preconceitos, rótulos e conceitos engessantes e se entregar a um processo de (auto) transformação, onde o novo possa emergir.

E o antídoto contra a psicofobia é a psicofilia – o amor ao sujeito, a disponibilidade ao diálogo e a aceitação da diferença.

Abaixo a discriminação! Cuidadores, terapeutas, médicos, psicólogos e psiquiatras: unamo-nos todos em prol da humanização da saúde!

 

Saiba mais sobre o projeto de lei que criminaliza a psicofobia. E entenda a sua lógica medicalizante.