Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade manifestação em tempo de pandemia – Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade

manifestação em tempo de pandemia

“Vida sem utopia
não entendo que exista”
(um comunista, Caetano Veloso)

No ano em que iremos fazer uma década de existência, a Covid-19 tirou muitas de nós do nosso espaço de luta, do chão da escola, da ponta dos serviços. 

Uma realidade distópica, sempre presente, foi intensificada com sucesso pandêmico, expondo, ainda mais as vulnerabilidades dos grupos historicamente explorados. A medicalização ficou e vem se agravando em diferentes sentidos na captura dos modos de existência nesses tempos difíceis de sobreposição de crises no país: social, sanitária, política e econômica.

Em tempos de colapso da imunidade do sistema capitalista, a responsabilidade de manter-se a salvo é jogada, mais uma vez, nas costas dos indivíduos empobrecidos, vulnerabilizados por essa estrutura desigual, que sozinhos, devem se proteger da contaminação e contaminados devem se auto-curar se quiserem viver. 

Sem negar a importância da responsabilidade individual, a perversa medicalização opera na tentativa de, mais uma vez, invisibilizar os descasos históricos com o SUS ( Sistema Único de Saúde), com a desigual distribuição de riquezas planejada pelo capital. 

Para alguns, a pandemia foi recebida como algo novo e com muita dor, para outros, atualização de violências e desigualdades “de sempre”, de mais de 520 anos, o que ao mesmo tempo dá visibilidade ao horror naturalizado. Morreu, e daí? São mulheres e homens, periféricas, pretas, pobres, diabéticas, velhas e doentes. 

A ausência de políticas públicas sólidas que assegurem o direito ao isolamento físico de toda a população é só mais uma das muitas omissões deste Estado necropolítico, que uníssono aos gritos dos patrões sanguessugas, convoca trabalhadoras e trabalhadores a arriscarem suas vidas e as vidas de suas famílias para a manutenção da máquina de lucro. Nos tiraram o direito ao isolamento.

Não podemos nos esquecer que a história do processo da medicalização da educação mostra como a  Ciência não é neutra e deve ser posta em discussão. Para nós ela só será pertinente quando incluir o conhecimento produzido em sala de aula e pelas pesquisadoras da educação, que reiteradamente lembram em suas pesquisas que escola transcende quadro e giz ou internet e tablet

A “Ciência” baseada “em evidências”, gráficos e números, quando não discutida amplamente só promovem a precarização do trabalho e não o cuidado das relações.

O capitalismo é cínico, e o nosso atual sistema de educação é capitalista. Por isso que nos jogam migalhas de direito e baldes de ameaças. As aulas voltam no novo normal. O novo normal é sem dignidade e inclusão. Fique em casa, faça lives, esteja bem e muito produtivo. 

Não podemos compactuar com sistemas de ensino que simplesmente fecham os olhos para a formação em nome do cumprimento da carga horária. Não podemos pactuar com aula remota na educação infantil, o direito à infância é fundamental. 

Há uma acessibilidade conivente, um discurso do “venha quando eu achar necessário”. Ou só venha com seu corpo ‘capaz’.

Queremos inclusão de verdade! 

Queremos escolas e universidade abertas para construir com a comunidade, população e trabalhadores, poder aprender com grupos de jovens e comunidades que há educação e processo de formação nos grupos de whatsapp 

Em que estrutura social queremos viver coletivamente depois da pandemia? Como construir um novo “normal” que não tenha espaço para que alguém fique pelo caminho por falta de recursos objetivos para continuar?
A nossa primeira pessoa é no plural!

O Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade é muita gente, muitos movimentos e muitos desejos. A nossa primeira pessoa é no plural, contra as amarras dos assujeitamentos universalizantes presentes na medicalização decorrente da pandemia, reiteramos: ingovernáveis, desobedientes, destemidos. Nossa aposta reiterada, e vivenciada nessa escrita, é de que só a luta efetivamente mudará nossas vidas! Coragem, amor, coragem!