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Sobre a existência da dislexia

Mais uma vez, o tema ganha espaço na mídia, sem que haja, no entanto, o cuidado adequado com as informações veiculadas. É regra conhecida da imprensa que toda reportagem deve conter, em igual medida, as muitas facetas que compõem o quadro de determinado tema, sobretudo quando se trata de saúde e de qualidade de vida das pessoas.

É verdade que no caso da reportagem Entidade cobra política para dislexia, publicada na FSP do dia 11/10,os editores trouxeram os dois lados da questão. Já no subtítulo vemos sua tendência à equanimidade: Para instituto, país precisa de ações para identificar crianças com transtorno; governo diz que ‘rotular’ não é o caminho. No entanto, o leitor não precisa ser muito atento para perceber não há imparcialidade na exposição dos dois lados. Enquanto o instituto afirma que país precisa de a��ões, o governo diz que rotular entre aspas não é o caminho. Qual das falas, descritas da forma como estão, passa maior credibilidade?

Na continuidade da reportagem, vemos um box explicativo do que é a dislexia, sob um específico ponto de vista, aquele que a classifica como doença neurológica. Há exemplos concretos, indicações de condução do problema, referência a pesquisas, depoimento de disléxicos. Já as informações relativas ao outro lado da questão estão pouco desenvolvidas dando a sensação de que partid����rios de uma visão diversa sobre o tema não possuem mais do que um falatório inútil, que pouco contribui para o debate. E no meio disso está a ação do Ministério da Educação que, pela reportagem, resume-se a n������o rotular entre aspas o aprendiz para que não perca sua autoestima.

Se a FSP quer que o seu leitor tire suas próprias ideias a respeito dessa e de inúmeras outras questões que o alimente de modo semelhante em todas as facetas apresentadas.

Para quem defende que os problemas de aprendizagem da escrita têm origem social, a dislexia é um diagnóstico nocivo. Nocivo porque desconsidera a multiplicidade de fatores que envolve a aprendizagem. Desconsidera histórias singulares de vida, ritmos e formas particulares de aprendizagem e, sobretudo, os aspectos inerentes à construção da escrita que necessariamente passam pela lógica do aprendiz (seja ele criança, adolescente ou adulto). Nocivo, implacavelmente, porque toma a dislexia como uma falha neuronal,  dando-lhe um caráter de perenidade, que aliás está colocado no box que explica o que é a doença: inato, tem influência genética e é permanente. Aqui o sujeito perde sua condição de aprendiz para se tornar um doente que vai passar o resto de sua vida remediando o problema.

Isto está posto no depoimento de Gabriel Carvalho Mas Santacreu, 23: “Até a segunda série, eu ‘comia’ letras e palavras. A diretora disse para a minha mãe que eu era burro. (…) Vi que conseguia ‘gravar’ a aula [referindo-se ao recurso da memória visual]. Passei a prestar ainda mais atenção. Hoje, me sinto normal.”

Faltou algu��������m dizer ao Gabriel que comer letras até a segunda série é perfeitamente possível e normal dentro do processo de construç��o da escrita. Tudo é uma questão de se compreender a lógica da construção desse seu erro. Que letras Gabriel comia? Em que contexto da palavra, em que tipo de situação de escrita? Tudo isso conta muito antes de se fechar um diagnóstico de dislexia.

E mais.

Se Gabriel não teve nenhum professor que lhe explicasse a lógica por ele usada na escrita das palavras que afastava suas produções da escrita coletiva e se Gabriel teve uma diretora que o classificava de burro para sua mãe, ele teve sim um ensino com falhas. Falhas nas parcerias estabelecidas na construção desse conhecimento tão importante na vida de todos nós.  Falhas na capacitação dos professores, não para diagnosticar doenças, mas para dar suporte adequado à aprendizagem.

Gabriel diz que hoje se sente normal. Faltou alguém dizer ao menino Gabriel que ele já era normal aos sete, oito anos de idade. Tão normal que, talvez precocemente, tenha percebido que a escrita depende sim da memória visual. Não como estratégia sua por ser disléxico, mas por ser a escrita fundamentalmente visual. O que ocorre é que, em seus primeiros passos no mundo da escrita, a criança se apega à oralidade, modalidade da linguagem por ela mais conhecida,  e aí vai fazendo relação som-letra. Mas com a proximidade ao mundo letrado, o aprendiz vai recorrendo ao que é mais característico da escrita: seu aspecto visual.

Falta também a quem diz que a dislexia é uma doença neurológica acompanhar as pesquisas recentes sobre plasticidade cerebral.  O cérebro, em sua forma e funções, não é causa do que acomete ��s pessoas, mas sim consequência das experiências vividas.  Em outras palavras,  dê a uma criança o diagnóstico de dislexia, como algo neurológico e permanente,  e junto com isso vem a ideia de que ela deve se afastar de situações letradas para não sofrer. Temos ai sim a perpetuação de um estado incapacitante. Por outro lado, dê a uma criança com dificuldades na aprendizagem a oportunidade de ser escutada em sua lógica e a possibilidade de rever suas produções em parcerias saudáveis e teremos ai alguém mais ciente de suas potencialidades.

Isso faz muita diferença e é nesse sentido que vejo como pejorativo o uso das aspas no caminho que o Ministério da Educação tem seguido. É não rotular sem aspas mesmo, como uma denúncia necessária para que modos diversos de aprendizagem sejam verdadeiramente considerados.

E para que a FSP seja equânime nessa reportagem faltou anunciar um evento, como o fez para a institui��ão entrevistada. Dia 11 de novembro, haverá a comemoração do dia municipal da luta contra a medicalização na educação.  Vamos brincar e desmedicalizar a vida! Lá no Parque do Ibirapuera, no estacionamento do Museu Afro-Brasileiro.

Lucia Masini
Fonoaudióloga, docente do curso de Fonoaudiologia da PUC-SP e membro da Associação Palavra Criativa