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Resposta aos meus críticos by Thomas Armstrong

 

Em resposta ao artigo “Porque desinformação, falta de raciocínio científico e ingenuidade constituem uma mistura perigosa” (http://www.thomasarmstrong.com/articles/add_myth.php), primeiramente, gostaria de dizer que ressinto a sugestão dos autores de que eu me aproveito do sofrimento das famílias ao oferecer curas ineficazes ou milagrosas, ou a de que pretendo explorar financeiramente o sofrimento alheio.

Tenho sido um educador nos últimos quarenta anos, e em grande parte desse tempo, com um salário muito baixo.

Comecei a investigar a questão do TDAH (na época chamada ‘síndrome da hipercinética’) em 1973 e, desde então, tenho buscado a verdade de forma apaixonada.

Meu objetivo sempre foi o de auxiliar na ampliação da perspectiva sobre o assunto e, ao fazê-lo, auxiliar no alívio do sofrimento das famílias, e não o causando.

Se os autores, ao invés de consultarem o meu texto de 1000 palavras sobre o assunto (“Porque eu acredito que o Transtorno do Déficit de Atenção é um mito”), tivessem lido meus dois livros sobre esse tema (“The Myth of the ADD Child” and “ADD/ADHD Alternatives in the Classroom”), eles poderiam ter descoberto que o meu propósito maior tem sido o de proporcionar soluções práticas para auxiliar pais e professores no cuidado de crianças hiperativas e desatentas, não buscando ganhos financeiros ou a exploração de pessoas vulneráveis.

Agora, deixe-me responder a alguns dos argumentos dos autores, ponto a ponto:

  • Os autores afirmam que uma vez que o TDAH é sustentado por milhares de artigos médicos com avaliação de pares ele é uma entidade real.

Eu deveria lembrá-los que na década de 20, século XX, uma pessoa com QI baixo era diagnosticada, por praticamente todos os médicos ocidentais, como um ‘débil mental’, um ‘imbecil’ ou um ‘idiota’. E que na década de 50 do mesmo século, médicos descreviam a homossexualidade como um distúrbio sociopático da personalidade.

A questão é: só porque a maioria dos médicos diz que algo é de uma determinada forma, isso não significa que ele seja assim.

Tempos diferentes trazem com eles desordens diferentes.

Quem poderá dizer que em cinquenta anos os médicos não terão outra formulação para descrever e explicar as crianças hiperativas?

  • Os autores procuram depreciar minha ‘pesquisa informal’ comparada às pesquisas publicadas em jornais científicos.

Ao fazerem essa afirmação, os autores estão tomando partido dos positivistas lógicos na filosofia que alegam que a verdade só pode ser conhecida a partir de números e dados empíricos e objetivos.

Entretanto, há uma grande escola na filosofia, chamada fenomenologia, que alega que a verdade só pode ser conhecida a partir da experiência imediata e pessoal.

Minhas experiências pessoais como educador nos últimos quarenta anos convenceram-me das conclusões apresentadas em meu artigo.

Dizer que minhas conclusões são inferiores às encontradas nos periódicos médicos é tomar partido dos positivistas contra os fenomenologistas.

Existe um antigo ditado Sufi que ilustra essa questão.

Um homem foi à casa de um amigo e perguntou se ele poderia pegar seu macaco emprestado por um dia. O amigo disse “Desculpe, mas eu emprestei o meu macaco hoje”.

O amigo ficou desapontado e começou a caminhar de volta para casa, mas no caminho de volta escutou o macaco urrando no quintal de trás. O homem retornou à casa do amigo e disse “Eu pensei que você tivesse me dito que havia emprestado o seu macaco hoje”. “Sim, eu o fiz” disse o amigo “Mas eu posso ouvir os urros dele vindo do seu quintal!”.

O amigo respondeu “Em quem você vai acreditar, no macaco ou em mim?”. Diversas vezes, nós somos solicitados a desmerecer nossas próprias experiências diretas em favor de alguma autoridade arbitrária (nesse caso, periódicos médicos e médicos).

Minha preocupação é que essa crescente medicalização está ameaçando distorcer o nosso entendimento sobre o ser humano como um todo e suas variações no desenvolvimento.

De fato, ao invés da metáfora da ‘incapacidade’, nós deveríamos usar uma perspectiva da ‘diversidade’ ao olhar para essas crianças (veja o meu livro The Power of Neurodiversity).

E só para os autores não acharem que eu seja o único preocupado sobre o alastramento da medicalização das variações do desenvolvimento, eles podem estar interessado em saber que o Dr. Allen Frances, o médico responsável por dirigir o comitê que criou o DSM – IV, a Bíblia da psiquiatria norte-americana, tem escrito inúmeros artigos dividindo sua preocupação de que o novo DSM V seja uma continuação desse processo de expansão das desordens, e dessa maneira estreitando o número de pessoas consideradas ‘normais’ em nossa sociedade (veja o seu artigo “It’s not too late to save ‘normal’ in the Los Angeles Times, March 1, 2012 –http://articles.latimes.com/2010/mar/01/opinion/la-oe-frances1-2010mar01).

A propósito, se os autores estão interessados em pesquisas relacionadas às alegações que eu fiz em meu artigo, eles apenas precisam procurar a lista de 36 páginas de referências no meu livro The myht of the ADD Child.

  • Os autores alegam que estudos comprovaram que o TDAH tem prevalência similar em diferentes países no mundo. Eles indicam que as inconsistências encontradas antes eram causadas por métodos diagnósticos diferentes.

Entretanto, há controvérsias nesse assunto. Alguns pesquisadores, Canino e Alegria no Journal of Child Psychology and Psychiatry de Março de 2008, por exemplo, revisaram inúmeros estudos e sugeriram que “a prevalência e características limiares do que é considerado um sintoma patológico [do TDAH] variam em diferentes culturas” (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3104469/ ).

  • Os autores parecem concordar comigo que os sintomas do TDAH podem variar em diferentes ambientes.

Entretanto, eles continuam acreditando que se os sintomas do TDAH são prevalecentes o suficiente em pelo menos ALGUNS desses ambientes, o diagnóstico do TDAH está garantido.

A questão permanece, entretanto, nas variações dos sintomas em diferentes ambientes, e a questão que deve ser investigada são os fatores que podem contribuir para diminuir os sintomas.

Recentemente, por exemplo, uma pesquisa sugeriu que os sintomas do TDAH diminuem em crianças que estão em ambientes ‘verdes’, ou seja, em contato com a natureza ( ex: parques, florestas, etc) ((Kuo and Taylor, American Journal of Public Health, September 2004 –http://ajph.aphapublications.org/doi/abs/10.2105/AJPH.94.9.1580 ).

Por outro lado, se a criança tem que se sentar em cadeiras durante o dia todo, os sintomas aumentam. O que isso sugere?

Isso sugere que precisamos encontrar tempo todos os dias para que essas crianças se envolvam em atividades de aprendizado ao ar livre e menos tempo sentadas em salas de aula tediosas.

Devemos arrumar a criança ou o ambiente? Os defensores do TDAH parecem pensar que seja melhor medicar as crianças a mudar o tipo de ambiente. Eu discordo.

  • Os autores parecem pensar que ‘atividades de desempenho contínuo’ não são mais usadas como parte do processo diagnóstico do TDAH.

Eles deveriam consultar o Teste Connos de Desempenho Contínuo II, por exemplo, que segundo indica seus editores “é largamente usado na pesquisa e investigação clínica do TDAH”  http://www.devdis.com/conners2.html

Esses testes são usados com mais intuitos do que “clarear alguns aspectos do desempenho do paciente” (o que isso significa afinal?)

  • Os autores dizem que não somente o TDAH, assim como a esquizofrenia, a depressão e o autismo não podem ser medidos com testes de sangue.

Eu irei aceitar esse argumento, mas farei referência ao teste genético como um marcador. Algumas pesquisas tem sugerido que pessoas com TDAH tem um gene receptor de dopamina que tem sido descrito como o ‘gene da agitação’ (thrill gene).

Há discordâncias nesse ponto, mas mesmo assim, eu prefiro pensar nele como um gene “em busca do novo”. Um que se encaixa com o que nós observamos.

Pessoas com TDAH de fato preferem novidades – eles ficam entediados facilmente (como dito acima). Mas isso é ruim assim?

Isso, na verdade, é um modo de medir a criatividade.

Bonnie Cramond, um pesquisador da criatividade da Universidade da Geórgia, tem escrito sobre os pontos em comum entre TDAH e as pessoas criativas. (http://www.gifted.uconn.edu/nrcgt/cramond.html ).

Se analisarmos o TDAH nos termos de uma desordem médica, teremos pouca probabilidade de vermos o lado criativo dessas crianças.

Os autores contra-argumentam essa perspectiva com uma lista um tanto longa de características negativas para crianças com TDAH: problemas na escola, alcoolismo, taxas maiores de acidentes, etc.

É claro que, para mim, isso sugere que devemos fazer tudo o que for possível para ajudar essas crianças a vencerem na escola e na vida. E é por isso que a maior parte dos meus escritos (que os autores provavelmente não leram) apresenta soluções práticas para auxiliar essas crianças.

Meu livro The Myth of the ADD Child, na verdade, lista 50 estratégias práticas que os pais podem tentar, incluindo o uso de artes criativas, sustentando uma imagem positiva da criança, combinando proteína e carboidratos no café da manhã, ensinando habilidade de resolução de problemas, dando escolhas para as crianças, promovendo um programa de educação física intenso nas escolas, entre outros. http://www.thomasarmstrong.com/add-adhd_strategies.php

Eu não sou contra o uso de medicamentos psicoativos para algumas crianças, se outras intervenções falharem. Se o TDAH existe ou não, precisamos ajudar as crianças com essa etiqueta a terem êxito e realização na vida. Mas muitas vezes, nós buscamos a medicação, ao invés de outras alternativas não-medicamentosas.

  • Os autores parecem imaginar o que esporte, criatividade e música têm a ver com o TDAH. Meu ponto é que o diagnóstico de TDAH muitas vezes transforma a perspectiva de pais e educadores sobre a criança em negativa (e até patológica), e obscurece os verdadeiros dons que ela de fato possui.

Estou trabalhando em um novo livro intitulado provisoriamente de “First, Discover Their Strengths” (Em primeiro lugar, conheça a força deles)  – e isso, eu acredito, é a intervenção mais importante para começar a ajudar essas crianças.

Primeiro, nós precisamos ensiná-las o que elas têm de bom e ajudá-las a acreditar nelas mesmas (eu também escrevi um livro infantil chamado “You’re Smarter Than You Think” [Você é mais inteligente do que pensa] para auxiliar crianças a se enxergarem como seres humanos positivos).

E eu acredito, em oposição aos autores, que prover modelos positivos de indivíduos como Einstein e Thomas Edison – que lutaram contra a falta de atenção, distração, hiperatividade, etc – é uma boa intervenção, já que elas serão motivadas a pensar “Se eles podem, eu também!”.

 

http://medicalizacao.com.br/resposta-aos-meus-criticos-thomas-armstrong-ph-d/


Genre: Artigo
Subjects: Medicalização